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A voz do Papa

Nossa entrevistado é conhecido popularmente como a “Voz do Papa”, por conduzir as transmissões das celebrações pontifícias em língua portuguesa.

3 Maio 2024
Silvonei José Protz
Diretor do Programa Brasileiro de Rádio Vatican News

 

Visitando o Brasil para uma série de compromissos e lançamento do primeiro livro de uma trilogia sobre o Papa Bento XVI – Simplesmente um peregrino - , a reportagem do Diocese em Ação encontrou com a ‘voz do Papa’, Silvonei José Protz, para uma entrevista que virou um bate papo descontraído e regado a boas risadas. Simpaticíssimo, não fez rodeios quando o assunto era defender a utilização dos meios de comunicação na evangelização.

Diz amar a expressão ‘pasconeiros’ utilizada no Brasil para designar os agentes da Pastoral da Comunicação (Pascom). Com o vozeirão que lhe é peculiar e pelo qual é amplamente conhecido, falou sobre os livros, sobre a vivência de 30 anos na comunicação do Vaticano e sobre Inteligência Artificial, tema do 58º Dia mundial das comunicações.

Qual a ideia central do livro? Tido como um Papa, digamos, menos carismático que o Papa Francisco, o senhor deseja mostrar um Papa Bento diferente através da trilogia?

Quando foi eleito sucessor de Pedro, Bento XVI já acumulava cerca de 23 ou 24 anos de contribuição através da Congregação para a Doutrina da Fé. Por isso, algumas pessoas o viam como alguém rígido. No entanto, quem o conhecia sabia que isso não era verdade. Ele era uma pessoa incrivelmente humilde, simpática e extremamente tímida. Sua timidez poderia ser mal interpretada como rigidez ou dificuldade de se relacionar com as pessoas, mas essa não era sua verdadeira natureza. Por meio dos livros que escrevi, busquei não apenas abordar sua figura, mas também seu legado, que pode nos ajudar em nossa jornada espiritual. Ao escolher temas específicos de seus discursos e escritos teológicos, procurei tornar seu pensamento acessível, pois sei que, às vezes, pode ser difícil de entender. Meu objetivo é proporcionar aos leitores uma leitura clara e compreensível, oferecendo um diálogo aberto e acessível.

O Papa Bento XVI sempre insistiu, em discursos e escritos, muito na qualidade do cristão e na pertença à Igreja. Isto é tratado no livro?

Esse é o grande legado dele. Ele foi um papa reflexivo, que nos incentivava a pensar profundamente sobre o valor de nossa fé e o significado de nossa pertença à Igreja. Ele nos desafiava a considerar não apenas o que significa ser católico, mas também como vivemos essa identidade em nossas vidas. Ele questionava: o que significa dizer que somos católicos se não agimos de acordo com os princípios da nossa fé? Ele valorizava a qualidade da nossa pertença à comunidade cristã, mais do que simplesmente o número de membros que ela possui. Quando questionado sobre a diminuição do número de católicos no mundo, ele respondia enfaticamente: 'E a qualidade?'. Ele preferia uma fé autêntica e comprometida a uma adesão superficial e meramente nominal. E vimos que, com o tempo, o número de católicos aumentou, exatamente porque ele destacava a exigência e a importância de uma pertença genuína. Ser católico não é apenas uma questão de declaração verbal, mas de testemunho e comprometimento com os ensinamentos de Cristo.

O jornalista Silvonei José em abertura do curso de jornalismo em Faculdade Católica. — Imagem: Andrea Rodrigues.

Nos conte um pouco sobre seu trabalho atualmente na comunicação do Vaticano

Atualmente, sou responsável pela parte em português da Rádio Vaticano para o Brasil e faço parte do Centro Editorial Multimídia. Somos um grupo que coordena seis línguas, dentre as cinquenta presentes em nosso Dicastério. Além de cuidar das crônicas das celebrações, também procuro contribuir para que o mundo lusófono possa rezar com o Papa. Para mim, isso vai além de simplesmente seguir um espetáculo; trata-se de proporcionar momentos de conexão espiritual. Em todas as minhas transmissões, tenho alegria em compartilhar as palavras do Papa, sempre pensando em pessoas como dona Maria, uma senhora idosa sentada no último banco da igreja, que deseja rezar junto com o Papa. É essa conexão humana e espiritual que me motiva e inspira em meu trabalho diário.

Este mês viveremos o 58º Dia Mundial das Comunicações Sociais que trata sobre a Inteligência Artificial. Como o senhor lida com esse assunto?

Estamos em um momento crucial de transição, onde é essencial que não sejamos apenas objetos passivos, mas sim protagonistas ativos dessa transformaçã.

Na mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Comunicações, sua advertência é clara: que o ser humano não se torne apenas um elemento de algoritmos, mas que permaneça verdadeiramente humano, real. A preocupação central é que a ética permeie o discurso e que aqueles envolvidos no desenvolvimento tecnológico compreendam sua responsabilidade de colocar a tecnologia a serviço da humanidade, e não o contrário. Estamos em um momento crucial de transição, onde é essencial que não sejamos apenas objetos passivos, mas sim protagonistas ativos dessa transformação. A nova tecnologia tem o potencial de beneficiar muitas pessoas, mas também pode causar danos. Portanto, devemos ser gratos pela inteligência humana que a desenvolve, mas é crucial que essa tecnologia seja utilizada para o bem comum e para o serviço da humanidade, e não para interesses individuais egoístas que buscam protagonismo.

Em dezembro passado, o decreto Inter Mirifica sobre os meios de Comunicação Social completou 60 anos. Como o senhor vê, a partir do decreto, o desenvolvimento da relação da Igreja com a comunicação?

Este documento marca um ponto de virada na Igreja, pois reconhece a importância dos meios de comunicação e tudo o que fazemos através deles. Para os comunicadores, o Inter Mirifica, por exemplo, é um ponto de partida para compreender o verdadeiro papel da comunicação na Igreja, seja por meio das ferramentas ou dos processos comunicacionais. É crucial que sejamos comunicadores eficazes, pois a comunicação é inerente à nossa natureza humana. Desde o primeiro choro de um bebê, que anuncia sua chegada, até os sinais de fome ou dor, estamos constantemente nos comunicando, mesmo sem proferir uma palavra. No entanto, em um mundo tão saturado de tecnologia, às vezes lutamos para compreender uns aos outros ou interpretar corretamente expressões faciais e gestos. Portanto, é fundamental que a Igreja reconheça a importância da comunicação e dos comunicadores, investindo na formação e capacitação desses profissionais. A comunicação deve ser conduzida por pessoas habilidosas, capazes de transmitir a verdade de forma clara e significativa, indo além de simples afirmações para oferecer justificativas e motivos convincentes.

A Pastoral da Comunicação no Brasil é bem atuante nas paróquias, Dioceses, no Regional Sul 1 e em tantos outros lugares. Qual a importância do trabalho da Pastoral da Comunicação nas paróquias?

Fundamental, eu diria até essencial. Essencial porque estamos alcançando não apenas os jovens que estão descobrindo o mundo ao seu redor, mas também aqueles que estão moldando esse mundo. O objetivo é transformar esse mundo para o benefício de todos, não apenas para benefício próprio ou para consumo pessoal. É incrível quando você percebe o potencial que a comunicação tem para ajudar as pessoas a crescerem. A comunicação é sobre criar relações; se um dia não estivermos mais comunicando, algo estará errado, cada agente deve avaliar como está a sua comunicação. Devemos provocar a comunicação por meio de nossas ações, provocando reações nos outros. Lembro-me de um professor de comunicação que costumava dizer que, se você conseguir fazer uma única pessoa pensar ao final de um programa de rádio, já valeu a pena. Porque você mudou aquela pessoa de alguma forma, e é isso que devemos aspirar a fazer.

Essa abertura para o diálogo do Papa Francisco de alguma forma foi boa para a imprensa? Aliás, ele sempre quer a imprensa muito próxima. Como essa abertura impactou no trabalho de cobertura e assessoria do Santo Padre?

Ser católico não é apenas uma questão de declaração verbal, mas de testemunho e comprometimento com os encinamentos de Cristo.

Lembro-me da primeira vez que tentei conseguir uma entrevista com ele, durante a Jornada Mundial da Juventude no Brasil. A resposta que recebi foi que ele não concedia entrevistas. No entanto, hoje vemos que ele está aberto a entrevistas com diversos veículos de comunicação. Ele até concedeu uma entrevista para um jornal de rua em Milão, que provavelmente tinha apenas cerca de 100 ou 200 leitores. Essa atitude exemplar me marcou profundamente e é algo que sempre compartilho com meus alunos como um exemplo inspirador. Ele nos ensinou que, se quisermos entender a verdade de alguém, precisamos calçar os sapatos dessa pessoa. Só então poderemos ver as coisas de uma perspectiva diferente, compreendendo que cada indivíduo tem uma experiência única e valiosa para compartilhar.

O senhor, com toda a sua experiência e tendo uma visão mais ampla da Igreja no mundo, que esperanças enxerga para a Igreja Católica neste tempo de tantas polarizações em que estamos vivendo?

A Igreja está sempre em movimento, nunca estática. É justamente por estar em constante caminhada que eu mantenho a esperança. Tenho esperança na fé, na vontade e na união das pessoas, especialmente nos momentos difíceis, quando a solidão e a tristeza nos cercam. Mesmo quando a dor obscurece nossas noites, a fé nos ajuda a manter a esperança. A palavra 'esperança', do verbo 'esperar', é o que me impulsiona, pois sei que, como diz a música, 'apesar de você, amanhã será outro dia'. Apesar da negatividade e do ceticismo, vemos que a fé só cresce a cada dia, e é nosso dever cultivá-la, fazer com que essa fé, que nos foi concedida no batismo, se fortaleça. Tenho esperança porque a fé não está morta; ela está em constante crescimento.

Qual ação missionária, dentro do que nós, comunicadores católicos, fazemos ainda pode ser melhorada em vistas da informação?

Acredito que tudo passa pela formação. A formação é um elemento essencial para nos tornarmos missionários, para sermos comunicadores. Não somos simplesmente comunicadores; somos membros de uma comunidade que se comunica. Para encontrar meu lugar nessa comunidade, preciso ter formação. É fundamental estar sempre bem informado para que minha comunicação seja de qualidade e não apenas superficial. A nossa comunicação deve impactar a vida das pessoas e as ajudar a crescer. E em tempos de fakenews, ou seja, as notícias falsas que são quase um costume cotidiano e que muitas vezes se tornam virais, informar é formar, é “se envolver na vida das pessoas”, como afirma o Papa Francisco, portanto, preciso estar informado para um jornalismo verdadeiro, de paz, feito por pessoas para pessoas.

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Silvonei José Protz

Silvonei José Protz é brasileiro e natural de Guarapuava (PR). Doutor em Comunicação pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma: Formado em Jornalismo, Economia e Sociologia.

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