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Hiroshima e Nagasaki, 75 anos atrás o duplo holocausto nuclear

Em 6 e 9 de agosto de 1945, duas bombas atômicas destruíram Hiroshima e Nagasaki. Partindo desses fatos que abalaram o curso da história, vamos repercorrer os passos do Papa Francisco nestas duas cidades, em 2019, durante sua viagem apostólica ao Japão.

Vatican News | Quinta, 06 Agosto 2020 11:20
Hiroshima e Nagasaki, 75 anos atrás o duplo holocausto nuclear

Era 6 de agosto de 1945. Passaram-se algumas semanas do primeiro teste nuclear da história, ocorrido em 16 de julho de 1945 em Alamogordo, no deserto do Novo México. Na Europa, a Segunda Guerra Mundial tinha terminado, mas o Japão, não obstante fosse um país que tinha chegado ao extremo, não tinha a intenção de se render. Eram 8h15 da manhã. A aeronáutica militar americana lançou uma bomba atômica, urânio, codinome "Little Boy". A cidade de Hiroshima, que na época tinha uma população de cerca de 255 mil habitantes, foi atingida. Agredidos por uma verdadeira tempestade quente que avançava a 800 km por hora, pelo menos 70 mil pessoas morreram imediatamente. A estas vítimas somam-se milhares de outras pessoas que perderão a vida por causa da radiação nos dias, meses e anos que se seguiram.

Uma cidade em ruínas

Entre as testemunhas oculares dessa tragédia está o pe. Pedro Arrupe (1907 - 1991), que foi eleito reitor geral da Companhia de Jesus em 1965. Em 6 de agosto de 1945, ele estava na casa de sua comunidade religiosa na periferia de Hiroshima. “Eu estava no meu quarto com outro padre às 8h15”, escreveu ele lembrando aquele dia, “quando de repente vimos uma luz ofuscante, como um brilho de magnésio. Assim que abri a porta com vista para a cidade, ouvimos uma explosão enorme semelhante à rajada de vento de um furacão. Ao mesmo tempo, portas, janelas e paredes caíram em cima de nós em pedaços. Subimos uma colina para ter uma visão melhor. De lá, vimos uma cidade em ruínas. Procuramos uma maneira para entrar na cidade, mas era impossível. Fizemos a única coisa que podia ser feita na presença de tal carnificina em massa: caímos de joelhos e rezamos para ter uma orientação, porque não tínhamos nenhuma ajuda humana”.

Entre história e memória

Em Hiroshima há um lugar, em particular, que lembra o dia 6 de agosto. É o Memorial da Paz, um edifício construído em 1915 e gravemente danificado pela deflagração nuclear de 1945. É uma advertência indelével para a humanidade. Os seus restos e a cúpula, como recorda a Unesco, são “um símbolo claro e forte da força mais destruidora que o homem tenha criado”. No Museu ali próximo, através de fotografias originais, modelos realistas, impressões artísticas, objetos recuperados e explicações descritivas é possível repercorrer a história de Hiroshima, antes e depois do bombardeio, e os passos dramáticos que precederam, acompanharam e marcaram aquela tragédia.

Devastação causada pela bomba nuclear em Nagasaki

Nunca mais o rugido das armas

A viagem apostólica do Papa Francisco ao Japão, de 23 a 26 de novembro de 2019, acompanhada pelo lema “Proteger toda vida”, foi uma ponte entre 1945 e hoje, entre a memória daquela catástrofe e a ameaça nuclear que, ainda neste tempo, não foi completamente erradicada. No Memorial da Paz em Hiroshima, em 24 de novembro de 2019, o Pontífice pronunciou estas palavras: “Nunca mais a guerra, nunca mais o rugido das armas, nunca mais tanto sofrimento.” Um grito que se eleva de um lugar onde, após “um raio e fogo, não restou nada além da sombra e do silêncio”. “Apenas um instante”, lembrou o Santo Padre, “tudo foi devorado por um buraco negro de destruição e morte. Daquele abismo de silêncio, ainda hoje se continua ouvindo o forte grito daqueles que não existem mais. Vinham de lugares diferentes, tinham nomes diferentes, alguns deles falavam idiomas diferentes. Todos permaneceram unidos pelo mesmo destino, numa hora tremenda que marcou para sempre não apenas a história deste país, mas o rosto da humanidade”.

Tornar-se instrumentos de reconciliação

Em Hiroshima, lembrando todas as vítimas, o Pontífice indicou três imperativos morais: recordar, caminhar juntos e proteger. Não se pode permitir que “as gerações atuais e novas percam a memória do que aconteceu”.  Deve-se “caminhar juntos, com um olhar de compreensão e perdão”, e abrir-se à esperança, “tornando-se instrumentos de reconciliação e paz”. “Isto, acrescentou, “será sempre possível se formos capazes de nos proteger e nos reconhecer como irmãos num destino comum”.

Crimes contra o ser humano

O Papa Francisco também expressou o desejo de “ser a voz daqueles cuja voz não é ouvida e que olham com inquietação e angústia para as crescentes tensões que atravessam o nosso tempo, as inaceitáveis desigualdades e injustiças que ameaçam a convivência humana, a grave incapacidade de cuidar da nossa Casa comum, o recurso contínuo e espasmódico às armas, como se pudessem garantir um futuro de paz”.

“O uso da energia atômica para fins bélicos é, hoje mais do que nunca, um crime, não só contra o homem e a sua dignidade, mas contra qualquer possibilidade de futuro na nossa Casa comum. O uso da energia atômica para fins de guerra é imoral, assim como a posse de armas atômicas é imoral, como eu disse dois anos atrás. Seremos julgados por isso (Papa Francisco no Memorial da Paz em Hiroshima, 24 de novembro de 2019).”

Depois de Hiroshima, o horror se repete em Nagasaki

Três dias após o lançamento da bomba atômica em Hiroshima, uma segunda bomba nuclear foi lançada pela aeronáutica militar estadunidense em outra cidade japonesa. A segunda bomba, de plutônio, é denominada “Fat Man”. Era 9 de agosto de 1945. A cidade escolhida pelas forças militares americanas para lançar a bomba era Kokura, um dos maiores arsenais navais do Japão. Mas as condições meteorológicas adversas levam a uma rápida mudança de alvo. Era pouco depois das 11h da manhã. Em Nagasaki, que na época tinha uma população de 240 mil habitantes, a explosão da bomba causou a morte imediata de pelo menos 40 mil pessoas. Nos dias e anos seguintes, outras milhares de vítimas por causa da poeira radioativa. Algumas semanas depois das explosões atômicas em Hiroshima e Nagasaki, o Japão assinou a rendição incondicional. Foi o ato conclusivo da Segunda Guerra Mundial.

Fotografia tirada em Hiroshima depois da explosão da bomba atômica