A Igreja na sociedade

Dom Luiz Antônio Guedes | Segunda, 14 Janeiro 2019 09:45
A Igreja na sociedade

Na sua oração sacerdotal Jesus pede ao Pai que os seus discípulos estejam no mundo sem serem do mundo. Estar no mundo, pois é na sociedade, onde os seres humanos vivem e se relacionam, que os cristãos devem viver sua vocação e exercer sua missão. Estão destinados a ser “sal da terra” e “luz do mundo”. Não ser do mundo enquanto poder organizado sobre a injustiça e a opressão que prejudica e destrói a vida.

Os cristãos não estão sozinhos na construção da sociedade justa, fraterna e solidária. Há outros protagonistas que também agem para construí-la.

A “Gaudium et Spes” (Alegria e Esperança), que é um dos documentos emanados do Concílio Ecumênico Vaticano II, afirma que “pela fidelidade à consciência, os cristãos se unem aos outros homens na busca da verdade e na solução justa de inúmeros problemas morais que se apresentam, tanto na vida individual quanto social (nº 16)”.

Numa sociedade pluralista, como a de hoje, são muitas as mãos chamadas a aplicar-se na construção da civilização do amor, espelho mais próximo do projeto do reino de Deus. Os cristãos não detêm o monopólio desse processo. São abertos para ouvir e discernir as propostas de todos, acolhendo as que estão na direção de uma autêntica humanização. São conscientes também de que têm uma contribuição específica a dar na construção do mundo novo a partir de sua fé em Jesus Cristo. Se não a derem, ninguém poderá dá-la. E se omitindo eles serão o fermento do reino guardado no armário.

Retidão, identidade, diálogo e cooperação são atitudes necessárias para a construção da nova sociedade. Sem retidão e identidade não há verdadeiro diálogo. Repito e reforço que num verdadeiro diálogo não deve haver redução de um ao outro. É necessário preservar sempre a alteridade. Assim, o cristão não poderá renunciar à sua fé para aderir a uma ideologia. Procedendo desta forma estaria sendo o sal que perdeu a sua força e não serve mais para nada senão para ser lançado fora e ser pisado pelos homens. Numa conversa em grupo sobre o pluralismo da sociedade atual, ouvi de um sacerdote e psicólogo esta afirmação: “numa sociedade plural, só quem tem identidade sobrevive”. E eu estou convicto de que ele tem razão.

É importante incentivar a participação dos fiéis na busca de solução para os problemas da sociedade em vista de uma salutar convivência humana. Para isso, os fiéis precisam conhecer a identidade da própria fé e as suas consequências práticas, o que exige formação inicial e permanente e inclui o estudo da Doutrina Social da Igreja.  Não se pode aceitar o desejo de alguns de calar a manifestação da Igreja e de seus membros a pretexto de que o Estado é laico. É por ser laico que o Estado não pode impor uma visão unilateral e tem o dever de garantir a liberdade de expressão de todos, tanto os civis como os religiosos. Caso contrário, estaria fazendo diferença entre os seus membros e classificando parte deles como cidadãos de segunda categoria.

O espírito que norteia a decisão de traduzir a fé em atitudes concretas de serviço é a consciência de que o Reino é vida e vida plenamente realizada para todos. O que move os cristãos autênticos à ação é um profundo amor à humanidade segundo o modo com que Jesus Cristo a ama.

Oxalá os assuntos relacionados com as preocupações de todos e, especialmente, dos mais pobres esteja sempre nas pautas de nossos encontros e celebrações, pois “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (Gaudium et Spes nº 1).