Sociedade Santos Mártires: Valorização da vida!

Redação | Sexta, 06 Julho 2018 09:07
Sociedade Santos Mártires: Valorização da vida! Andrea Rodrigues / Divulgação

Encravada no centro de um dos bairros considerados pelo ONU no ano de 1996 como o mais perigoso do mundo está a Sede da sociedade Santos Mártires, no Jardim Ângela. Associação sem fins lucrativos e que atende, em seus 22 serviços sociais, seis mil pessoas diretamente e mais de 18 mil atendimentos indiretos por mês.

Visitando o local e conversando com os seus lideres é fácil entender porque a associação fez e faz diferença há 30 anos, na vida educacional, assistencial e social dos mais de 317 mil paulistanos, em cerca de 100 mil residências, que vivem no bairro e têm como principal via de acesso a região, a Estrada do M’Boi Mirim.

Padre Jaime Crowe, 73 anos, um irlandês que vive no Brasil desde o final dos anos 80, de sorriso fácil, sotaque ainda bem carregado e ferrenho torcedor do Corinthians, percebeu logo que chegou à Paróquia Santos Mártires a necessidade de combater os mecanismos de exclusão no bairro. Desde então a paróquia tem sido o espaço de ações sociais para a comunidade que vão da assistência ao empreendedorismo.

“Quando cheguei aqui, tinha apenas poucos postos de saúde nas redondezas, a violência já era muito grande, o acesso era difícil, faltavam escolas, creches, era preciso fazer algo para defender os direitos humanos”, enfatiza padre Jaime.

Na paróquia desde 1987, divide com padre Eduardo J. Macgettrick – um inglês muito bem humorado –, a tarefa de evangelizar e administrar os sacramentos e celebrar as missas nas cinco comunidades pertencentes à Paróquia Santos Mártires, além de participarem ativamente e de perto das atividades dos projetos da Sociedade.

“É muito comum procurarmos pelo Padre Jaime ou Padre Eduardo e eles estarem visitando um dos projetos”, revela Carlos Alberto, responsável pela comunicação.

Sentado em uma cadeira na sala de refeições, usa camiseta, calça jeans e um chapéu que lhe é muito característico, faz piada de si o tempo todo e é extremamente carismático. De repente alguém interrompe a entrevista: “Padre desculpe, mas preciso só te perguntar uma coisinha”, ele não se incomoda e sorrindo atende prontamente ao pedido, voltando à nossa conversa exatamente do ponto em que parou.

Saúde, educação, assistência social e segurança, foram ganhando campo no bairro à medida que a população ia sendo conscientizada, por padre Jaime e as muitas lideranças que já estavam na região, dos seus direitos e também de suas obrigações.

Padre Jaime não esconde sua militância e atuação em frentes políticas em que acredita e cobra com veemência as autoridades públicas. Já promoveu inclusive, inúmeras passeatas e bateu em portas de gabinetes para cobrar melhorias prometidas. Em 1996 ajudou a criar o Fórum em Defesa da Vida, uma iniciativa da sociedade civil organizada e que está abrigada nas dependências da Santos Mártires, com reuniões mensais, que reúnem diversos representantes da comunidade e membros de instituições públicas e privadas para debate e levantamento das necessidades da região.

Cada projeto da Sociedade Santos Mártires nasceu das necessidades sentidas nas redondezas e a primeira delas foi a falta de creches. “As mães que muitas vezes precisam trabalhar para ajudar no lar ou eram mães solteiras, não encontravam vagas nas poucas creches que tinha por aqui, então começamos de forma voluntária a cuidar destas crianças, aqui mesmo no espaço da igreja, aos poucos e ao longo destes anos, com muita luta conseguimos implantar os Centros de Educação Infantil (CEI), os Centros para Crianças e Adolescentes (CCA) e também os Centros para a Juventude (CJ)”, conta Padre Jaime.

As necessidades da comunidade eram e ainda são o que norteiam a Sociedade Santos Mártires, que tem como missão ser uma chama de esperança na região do Jardim Ângela, através de ações que valorizam e estimulam a prática da cidadania. Padre Jaime já recebeu muitos prêmios, sendo o último deles o Prêmio Dom Paulo Evaristo Arns de Direitos Humanos, em 2016, mas faz questão de deixar claro: “não faço nada sozinho, somos todos responsáveis”, enfatiza sem se gloriar e orgulhoso de todos que o rodeiam.

Projetos de proteção especial e inclusão como a Casa Sofia, o Serviço de Proteção Social a Crianças e Adolescentes Vítimas de Violência (SPVV), o Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos (MOVA) e o Ninho da Esperança engrossam a ação social da Sociedade.

A Casa Sofia, um núcleo especializado no atendimento à mulher vítima da violência, quer seja moral ou física trabalha com orientações e acesso aos direitos constitucionais. A ‘casa’ está sempre aberta e embora o espaço físico seja limitado o acolhimento é gigantesco. “Essas mulheres chegam aqui fragilizadas e muitas vezes sem saber o que fazer, que rumo tomar. Acolher e ajudar na superação dos traumas é essencial, além da ajuda prática de proteção, que muitas vezes é necessária. Em todos estes anos nós não ‘perdemos’ uma só mulher para a violência”, diz orgulhosa Maria Castro, gerente do projeto.

São 250 pessoas envolvidas nos projetos e muitos voluntários que se dedicam com o único objetivo de levar esperança e afeto. Este é o caso de Bete, uma senhora de olhar terno e fala fácil. Bete trabalha no projeto Ninho da Esperança, que fica as margens da represa do Guarapiranga e que atende diretamente 40 crianças e jovens com necessidades especiais diversas, além de prestar assistência a seus familiares.

“Eu comecei a freqüentar o ‘Ninho’ por causa da minha filha, hoje falecida. Fui muita ajudada e resolvi também doar meu tempo para retribuir toda ajuda e amor, me sinto muito feliz aqui”, comenta alegremente mostrando as fotos penduradas na parede da sala de todos os seus ‘filhos’, dizendo um a um seus nomes. Além de alimentação, os atendidos do ‘Ninho’ desenvolvem atividades para o fortalecimento de sua autonomia de acordo com suas necessidades e limites. A prática de esportes, canto e pintura são algumas delas.

Para Regina Paixão, envolvida com o projeto há 30 anos e a quase três anos presidente, a Sociedade Santos Mártires não só ajudou a resolver boa parte dos problemas de violência da região, como ofereceu oportunidades para as pessoas da comunidade. “Aprendi, com os padres, desde o começo, a acolher, a abraçar as causas, isso aqui é minha vida. Nunca antes a Sociedade havia tido na presidência um leigo, e assumir esse papel deu medo, claro, mas eu acredito muito que juntos somos mais fortes e melhores e a sociedade tem essa atmosfera de ajuda mútua e isso é o que faz dar certo”, diz sorridente a presidente.

Essa atmosfera de ajuda mútua é de fato sentida em cada pessoa envolvida nos tantos projetos visitados. Seja o educador, que ao ensinar a criança alimenta seus sonhos. Seja com o funcionário, que ensina um ofício na padaria comunitária ou na sala de informática dos projetos. Seja nas orientações do assistente social ou psicólogo, que aviva esperanças. Seja no abraço fraternal de cada um dos envolvidos na valorização e na prática da cidadania desta Sociedade que sim, acredita ser possível transformar situações através do amor e da caridade.

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